A corrida de revezamento e o mundo corporativo

revezamento corrida

Eu corro desde 2005. Ao longo dos anos participei de diversas provas, de diversos formatos e distâncias. Os revezamentos sempre foram muito legais, porque envolvem várias pessoas, logística, aventura e toda uma muvuca que torna a competição ainda mais divertida. Corri do tradicional Revezamento Pão de Açúcar (42 km pela região do Ibirapuera em São Paulo) à icônica 600K SP>Rio (sim, partimos da capital paulista e fomos nos revezando pela estrada até chegar à cidade maravilhosa). Mas foi em 2010, quando fiz minha estreia na Volta à Ilha, 150 km pelos quatro cantos de Florianópolis (SC), que passei a observar melhor esse tipo de corrida. Por meio de minhas experiências e conversando com outros participantes, percebi que o revezamento traz grandes aprendizados para o mundo corporativo.

Da formação da equipe, passando pelas estratégias montadas, até a realização da corrida em si, tudo envolve o grupo. Pessoas com temperamentos diferentes, com ritmos diferentes, alguns amigos de longa data, outros que se conhecem praticamente na hora… Também envolve responsabilidades e um jeito especial de extrair o melhor do que cada um tem a oferecer. Por isso, se sua equipe de trabalho precisa ser mais pró-ativa, se falta entrosamento entre os colegas do setor, se falta habilidade para lidar com pressão e improviso, eu recomendo: junte a galera do escritório e corra uma prova do gênero.

Listei nove ensinamentos que a modalidade pode trazer para seu dia a dia profissional.

# 1 É PRECISO DEFINIR OBJETIVOS
Sua equipe quer se divertir e completar a prova, pretende melhorar o tempo da edição anterior ou a intenção é chegar entre os primeiros? E na sua vida, quais são os propósitos? O que existe de esforço pessoal e o que depende de outras pessoas para realizá-los? “Para alcançar o sucesso é indispensável ter aspirações. Com persistência e determinação no cumprimento de metas é possível conseguir um melhor desempenho”, diz Kathleen Schienle, autora do livro Metas – Defina Objetivos e Supere Adversidades (Editora Senac). Ter em mente o que você quer certamente irá ajudá-lo a se organizar, a estabelecer estratégias, criar parcerias, a acelerar ou a diminuir quando preciso.

# 2 TRACE PLANOS E DEDIQUE-SE
Você tem um objetivo. Ótimo! É bom também saber como chegar lá. No ano que fiz a Volta à Ilha, dois amigos ultramaratonistas, Luciano e Brayner, de São Paulo, decidiram encarar os 150km em dupla – 75km para cada um. Foram quatro meses de planejamento e treinamentos específicos para chegarem bem condicionados. “Encaramos dias com muito sol, outros com chuva e até tempestade, treinos com vento contra e a favor. Corremos em montanhas, trilhas e em meio ao trânsito”, conta Brayner. De olho em seus objetivos, a dupla se organizou bem e contabilizou entre treinamento e prova cerca de 400 carboidratos em gel, 250 cápsulas de sal, 187 litros de água, nove quilos de suplemento, três pares de tênis por atleta, oito camisetas, 16 meias, oito bermudas e quatro bonés. Pelos cálculos, correram 2650km em treinos – chegando a fazer a fazer 70km em um único dia – e queimaram 252.900 calorias! Foram dias de dedicação, planejamento, suor e lágrimas. Mas eles chegaram lá: deram a volta na Ilha da Magia em 13h18m.

# 3 É IMPORTANTE TER (OU SER) UM LÍDER
Em uma corrida de revezamento, é fundamental que a equipe tenha um líder, atuando como coordenador (ou capitão) do grupo. Seu trabalho começa muito antes da prova, com a distribuição dos trechos aos atletas e a organização de toda logística. Cabe a ele também ter feeling e sensibilidade para extrair dos outros corredores o melhor do que eles têm a dar. Um bom líder – acessível, justo, organizado, flexível, parceiro – faz toda a diferença no desenrolar do trabalho.

# 4 TENHA JOGO DE CINTURA
Minha equipe na Volta à Ilha estava inscrita como um octeto na categoria aberta mista (três mulheres e cinco homens) e nosso objetivo era correr bem para não estourar o tempo limite de 13h45m de prova. Nossos planos começaram a ser traçados em fevereiro (a prova era em abril), com a formação de um grupo que cumprisse a meta. Poucos dias antes da corrida, quando pelo regulamento já não era possível fazer qualquer substituição, uma das mulheres desistiu. O que fazer? Cancelar a participação? A organização nos deu uma alternativa: uma das duas atletas teria de dobrar trechos. Eu não tinha performance para tanto. O jeito foi consultar a outra corredora. Professora de educação física e expert em corridas de aventura, Jessiê prontamente respondeu: “Vamos lá!”. Enquanto cada membro da equipe correu cerca de 20 km, Jessiê finalizou sua participação com 38km rodados. Mas esse não foi o único drible que tivemos de dar diante de um imprevisto. Já na prova, estacionados na Praia da Joaquina, aguardando a chegada de um de nossos atletas na areia, de repente alguém fecha o carro… com a chave dentro. Nosso outro veículo tinha de levar o próximo corredor ao posto de troca seguinte e, naquele instante, não poderia sair em busca de ajuda. Enquanto o capitão refazia os cálculos, de olho no cronômetro para ver o quanto de tempo teríamos para resolver o problema, um Google pelo celular nos salvou: arrumamos um chaveiro em Floripa, que em pouco mais de 15 minutos estava ali abrindo o carro. A lição: desesperar, jamais! No dia-a-dia, frente a uma dificuldade, procure manter a calma e busque alternativas.

cimg6333# 5 ACREDITE QUE SEU PLANO É POSSÍVEL
Quando o mundo parece conspirar contra – no nosso caso, chave trancada dentro do carro, um motor fervendo (sim, o outro veículo também deu sua rateada), corredor completando seu percurso e tendo de esperar 20 minutos no posto de troca para entregar o bastão ao companheiro atrasado -, o lampejo de uma perspectiva positiva pode mudar tudo. Acreditar que podemos virar o jogo é força motora em uma corrida de revezamento e deveria estar mais presente em nosso dia-a-dia. Um dos momentos mais lindos na minha experiência da Volta à Ilha foi esse “renascer” da equipe. Já quase no final da tarde, um pouco abatidos com os cálculos da cronometragem que apontavam para uma desclassificação naquele momento, aguardávamos a chegada de Eliandro. Ele, que vinha de um período de treinos irregulares, cumpria um trecho difícil e não tínhamos certeza de que chegaria a tempo no posto de troca. Eis que alguém o avista. Euforia geral: estávamos dentro ainda! O corredor seguinte “socou a bota” e recuperou preciosos minutos para a equipe, que ganhou confiança e estímulo extra para continuar na luta contra o tempo.

# 6 CRIE PARCERIAS
Ajude e seja ajudado. Na Volta à Ilha, por um erro de cálculo ou desorganização, um corredor de outra equipe foi deixado para trás em um dos postos de revezamento. “Vocês estão indo para o PC 20? Podem me dar uma carona?”, perguntou Daniel a um dos nossos corredores. Estávamos todos no mesmo barco, correndo contra o tempo. Claro que ajudamos. Outro exemplo de parceria, só que dessa vez dentro do meu próprio grupo, aconteceu na Praia do Campeche – 5km da mais pura areia fofa, classificado como “muito difícil”. Eu era a atleta da vez e temia pelo terreno que tinha à frente – sou uma corredora de asfalto. O nosso número 7, Batista, forte que só, resolveu me acompanhar. E se não fosse por ele, por mais que estivesse me esforçando, certamente teria vacilado e desclassificado a equipe – cheguei ao posto seguinte faltando dois minutos para o tempo limite. Atitudes como essas, na corrida ou fora dela, fortalecem você para sempre.

# 7 APRENDA A LIDAR COM AS DIFERENÇAS
As pessoas são diferentes. Os “paces” no dia-a-dia são diferentes. Há que se ter muito jogo de cintura para conviver com os mais variados tipos que cruzam nossos caminhos. Por isso, uma corrida de revezamento é um excelente exercício de convivência e tolerância, estando nós entre velhos amigos ou conhecendo os integrantes do grupo pouco antes da largada. Afinal, passamos horas dentro de um carro, comendo do jeito que é possível, cansados, suados, com ansiedade a mil, cobrando e sendo cobrados. “Em nossa equipe, a maioria se conheceu depois de topar participar da prova. E foi muito interessante o encaixe, todos se deram bem. A preocupação em ajudar os que estavam no seu trecho foi fundamental para terminarmos no tempo. Com uma equipe unida, fica muito melhor”, conta Carin, cujo grupo concluiu a prova em 13h26m.

# 8 VÁ ATÉ O FINAL
Voltemos à uma situação do meu grupo… A noite em Florianópolis caiu, a chuva apertou e os ânimos também se abalaram: apesar de todo o esforço da equipe, da luta contra o relógio, da reação dramática no final da tarde, faltando três postos de troca para o final, ficamos sabendo que estávamos fora. Ou seja, o tempo que tínhamos para cumprir havia estourado e estávamos desclassificados. Não precisaríamos correr os trechos seguintes – bastava entrar no carro e rumar para a chegada. “Começamos, vamos até o fim”, disse nosso capitão. Parecia, então, que disputávamos as primeiras colocações, tamanha garra que os atletas finais imprimiram à corrida. Dificuldades e frustrações acontecem na vida, claro. O importante é não se deixar abater.

# 9 A VIDA PASSA DEPRESSA… DIVIRTA-SE!
Foram 150 km, que alguns completaram em 8h36m e outros em 16 horas. Mas uma coisa é certa: passou depressa para todo mundo. É legal correr, dar o sangue, brigar pelos primeiros lugares ou batalhar para se superar e ajudar a equipe, mas é fundamental se divertir durante o percurso. Porque a corrida e a vida passam em um piscar de olhos.

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